Sunday, November 12, 2006




Não quero um carro

Não eu quero um carro. Com um carro eu não precisaria andar quilômetros, braço dado, diálogo constante, risos. Com um carro, eu não atravessaria aguadores de grama em disparada para que um pouco da água ficasse em mim, não caminharia trotando vez ou outra, não conheceria as praças, as barracas, os bancos.

Não me apraz limitar minhas o movimento de minhas pernas e pés a pedais de acelerador, freio e embreagem quando posso correr segurando a calça antes que o sinal abra. Não é de meu interesse procurar um lugar para estacionar quando posso te parar contra a parede aqui mesmo e te dar um beijo. De que me servem buzinas se posso gritar “Olha o carro!” e depois rir de mais um quase atropelamento.

Sigo por entre as ruelas de minha vida conhecendo as casas, desviando das pedras, olhando para um lado e para outro, raramente observando os sinais. Com um carro, a vida seria só imagens passando por janelas, postes que sucedem um após um.

“Home Again” – Carole King

01 de Fevereiro de 2005

Thursday, November 09, 2006




Algo sobre o casamento

Fomos acostumados a temer o casamento, a cerimônia, a oficialização. Tememos um papel como se linhas escritas viessem para tomar-nos a liberdade e dissessem :"agora não tem mais jeito". Como é dificil dizer "quer namorar comigo?", como é mais difícil ainda dizer "quer casar comigo?". É difícil pois não se sabe, por mais que se suspeite, a reação do próximo - muitas vezes não sabemos sequer qual vai ser nossa própria reação ao ouvir tais palavras, se vai-se correr ou ficar, se vai-se morrer ou poder, enfim, respirar.

Acho que se teme tanto por ser desconhecido. Há dois anos e pouco eu afirmaria com certeza que iria morrer solteira, afundando e me reerguendo em paixonites platônicas ou grandes amores que jamais dariam certo. Via-me escritora compulsiva - nada impulsiona mais a arte que a tristeza e a solidão. Hoje vejo-me de aliança no dedo, acostumando-me a assinar um nome a mais depois do meu Barteldes, apresentando as pessoas..."esse aqui é o meu marido", dividindo agrugas e felicidades ao lado de um menino homem que me surgiu do nada.

Vejo casais que se formam e rompem, vejo o mesmo brilho no olhar que carrego em tantas pessoas, vejo excelentes pais, excelentes esposas, vejo famílias que por medo não se formam, que por receio do peso da oficialização de algo que já é real para o universo. E me entristeço por não poder dar-lhes mais que o conselho: casem. Vivam juntos, comam juntos quantas quartas de sal forem necessárias. Ousem descobrir o prazer de não ter que esperar que amanheça para que se veja quem se ama novamente. A madrugada, jovens donzelas, é fria e longa demais para ser passada sozinha.


Trilha Sonora: "Como é que se diz Eu Te Amo" - Legião Urbana

















O Sol


Há um limite para tudo. Acho que é, sim, necessário viver cada sensação que a vida nos apresenta, tanto as boas como as ruins. Mas há um tempo para permanecer nelas. Se nos embebermos demais da mesma sensação, ela deixa de ser algo puro e se torna algo entre a rotina e a conformação. As pessoas ao nosso redor se cansam de passar os dedos entre nossos cabelos, a mesma música toca tantas vezes que perde o sentido e é automaticamente repetida pelos lábios. Não mais se sente. Sentir demais o mesmo por muito tempo é deixar de sentir, é morrer.

Há de se reapaixonar pela mesma pessoa ou por outras quantas vezes forem necessárias, há de se levantar o véu negro e encarar o mundo de novo, há de se perdoar e se não for possível perdoar, há de se esquecer e dar chance ao corpo e ao espírito para sentimentos e sensações novas ou mesmo antigas. É tentador permanecer num mesmo ciclo, é confortável levar nos olhos uma mesma expressão que com o tempo vai ficando apática, é desesperador manter os pensamentos num mesmo estado imutável e ver que desse assunto ninguém mais quer ouvir.

Não é um processo fácil. Desvencilhar-se das vestimentas de vítima do infortúnio é mostrar a carne descoberta para um mundo que lhe machucou de verdade. Mas não há ferida que não seja curada quando se quer curar, não há sofrimento eterno quando se decide não mais sofrer. É uma questão de opção, ou se deixa outro ciclo recomeçar ou se tenta em vão todas as noites segurar a madrugada com toda a força que se tem para evitar que o sol nasça novamente.

Jamie Barteldes


Trilha Sonora: “Hey Jude” – The Beatles

Saturday, October 21, 2006


Para que ninguém a quisesse

(Marina Colasanti)

Por que os homens

olhavam demais para a sua mulher,

mandou que descesse a bainha

dos vestidos e parasse de se pintar.

Apesar disso, na beleza chamava a atenção,

e ele foi obrigado a exigir que eliminasse os decotes,

jogasse fora os sapatos altos.

Dos armários tirou as roupas de seda,

da gaveta tirou todas as jóias.

E vendo que, ainda assim,

um ou outro olhar viril

se acendia a passagem dela,

pegou a tesoura e tosquiou-lhe os longos cabelos.

Agora podia viver descansado.

Ninguém a olhava duas vezes,

homem nenhum se interessava por ela.

Ela esquiva como um gato,

não mais atravessava praças e evitava sair.

Tão esquiva se fez, que ele foi deixando de ocupar-se dela,

permitindo-a que fluisse em silêncio pelos cômodos,

mimetizada com os móveis e as sombras.

Uma fina saudade, porém,

começou a alinhavar-se em seus dias.

Não saudade da mulher.

Mas do desejo inflamado que tivera por ela.

Então trouxe-lhe um batom.

No outro dia um corte de seda.

À noite tirou do bolso uma rosa de cetim

para enfeitar-lhe o que restava dos cabelos.

Mas ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas,

nem pensava mais em lhe agradar.

Largou o tecido numa gaveta, esqueceu o batom.

E continuou andando pela casa de vestido de chita,

enquanto a rosa

desbotava sobre um cômodo.

Thursday, October 19, 2006



Amigos Analgésicos



Cansei de amigos analgésicos. Pessoas que estão prontas para lhe oferecer aquele ombro amigo quando você está mal e nada está dando certo. Urubus da angústia que parecem esperar ansiosamente para que você caia para bancar o bonzinho e lhe oferecer algumas palavras de conforto, exatamente quando você está aceitando qualquer palavra. Criaturas dispostas a passar horas a fio ouvindo seus problemas só para ouvirem um “nossa...se não fosse você aqui...”.

Odeio tais seres profundamente, odeio, pois depois de viver um pouquinho não é difícil compreender que se eles só são companheiros quando você está mal - quando você finalmente fica bem, eles lhe viram as costas. A ruína do amigo analgésico é a cura, pois, curado, é possível ver quem realmente gosta de você. É possível discernir o certo do errado, sem as lágrimas que nos cegam. E é aí que o amigo analgésico se desfaz. Sua felicidade é algo doloroso demais para que ele suporte e é aí que ele parte para outra investida – sempre haverá alguém sofrendo no mundo e ele não pode perder sequer uma chance.

Em uma amizade, ninguém precisa de ninguém, ninguém TEM que estar em certas ocasiões para se denominar amigo. É uma questão de escolha. Estamos com quem gostamos por assim nos sentirmos bem, estamos sempre com quem gostamos pois assim somos felizes. Quando não se está em uma data especial na vida de alguém, é de se lamentar. Nem sempre podemos fazer o que queremos, vivemos em um mundo onde os interesses pessoais são sempre segundo plano. O mínimo que se pode ser é sincero. Não quis ir, diga. Desculpe-se apenas se assim lhe convier e se for verdade. Mas não jogue farpas ao seu amigo se ele ficar triste com você por querer sua companhia num momento de felicidade única de sua vida, não julgue sua falta perfeitamente desculpável simplesmente por você ter lhe sido analgésico quando ele estava mal. Você não está nas fotos do casamento dele, ele sequer ouviu sua voz num dos dias mais felizes de sua vida. Pouco a pouco, sua lembrança vai se esvaindo num grande band-aid gasto na lata do lixo.

18 de Outubro de 2006

Trilha Sonora: “J´en Connais" - Carla Bruni